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O HOMEM
Evolução histórica | Actualidade

 Evolução histórica

Em termos históricos, a região tem um percurso indissociável da sua expressão física: larga faixa entre a cumeada montanhosa de Lousã-Espinhal e as terras baixas, alagadas, que se espraiam até ao mar, marcada por pequenos maciços calcários, ziguezagueantes, descrevendo múltiplos planaltos, depressões, vales estreitos que ao longo dos séculos e dos milénios carrearam bens, mercadorias e costumes, ora abrindo portas aos invasores ou meros passantes, ora cerrando defesas.

Globalmente bem dotadas de recursos essenciais e facilidades de acesso que a proximidade do mar e os estuários dos rios proporcionam, estas terras foram desde sempre convidativas para o homem.

Mesmo nos tempos mais remotos, no Paleolítico, quando a Europa suportava o rigor climático imposto pelas glaciações, esta região – de modestas altitudes e sob a alçada temperada do Atlântico – seria convidativa a vida, como parecem testemunhar alguns sítios de ar livre então ocupados e adiante referidos, contrariando a velha ideia de que estes nossos antepassados eram “homens das cavernas”. A sua alimentação, por certo variada, contava com diversas espécies cinegéticas como a cabra montês, o auroque, o cavalo, o veado, o javali, o coelho, etc.

Da Idade da Pedra, ainda pouco investigada, conhecem-se sobretudo os vestígios concentrados na zona onde as bacias dos rios dos Mouros e Nabão se apartam. Fruto de uma mais intensa prospecção nessa região de Sicó (área ocidental do planalto de Degracia-Alvorge / escarpa da Senhora da Estrela ), registam-se, entre outras, as estações de Alvito e Vale de Sorza, talvez oficinas de talhe, Outeiro de Lá Vou, de natureza habitacional, Buraca Escura, certamente ocupada como acampamento temporário de caça, Buraca Grande e Gruta do Ourão, estas últimas datando já dos últimos tempos paleolíticos.

Alguns destes sítios vão ser alvo, ainda que de forma descontínua, de ocupações posteriores. É, aliás, nesta fase pós-paleolítica ou da Pré-história recente, que a região irá conhecer uma mais intensa, diversificada e abrangente ocupação.

Para além dos inúmeros testemunhos dispersos e fora de contexto, quase sempre machados e enxós de pedra polida, utilizados no abate de árvores e no cultivo das terras, conta-se agora com abundantes indícios de uma maior preocupação com os mortos. O seu sepultamento, envolvendo complexos rituais ainda mal conhecidos, é feito em grutas e abrigos como na Eira Pedrinha, em Ourão ou Buraca Grande, mas também nas antas como em Alto da Feteira e Alto da Carrasqueira (Pombal), na Atalaia ou Alto do Pisca (Ansião) que, timidamente, prolongam o megalitismo da Serra da Boa Viagem.

Simultaneamente, as populações foram-se fixando de forma cada vez mais perene, ocupando quer grutas e abrigos, quer sítios de ar livre, entre os quais se contam os de Outeiro de Lá Vou (Redinha), Cabeças, Atalaia, ou Sobreiras (Ansião). Do seu viver quotidiano quase nada sabemos, mas as suas armas e utensílios, os seus adornos e recipientes, alguns profusamente decorados, como o vaso de Casével (Condeixa), sugerem uma significativa afinidade cultural com as comunidades mais meridionais que habitavam a Estremadura.

O apego a terra e a dependência por ela gerada, quando os animais já não são só caçados, mas também criados, e os vegetais além de colhidos, semeados, exigindo maior número de braços, irão desenvolver profundas solidariedades comunais. Neste universo de partilha e de coesão familiar logo se afirmará um sentimento de propriedade e hereditariedade, de que os sepultamentos infantis de Eira Pedrinha são eco. Anunciam-se as novas formas de estruturação social da última etapa da Pré-história.

É nesta altura, no último milénio antes de Cristo, que se multiplicam os povoados nos altos rochosos, ao redor de Conimbriga e Alvaiázere, alguns deles na continuidade de ocupações mais antigas.

Mercê das novas estratégias de desenvolvimento, nas quais as trocas inter-regionais assumem papel de destaque e, com elas, uma mais activa circulação de pessoas, passa a dar-se particular atenção ao controlo visual do território. A produção do metal, designadamente do bronze, intensifica-se e é agora mais diversa: machados, foices, lanças, punhais, escopros e espetos circulam entre os povoados ou gravitam a sua volta, como testemunham os achados de Vendas da Figueira (Cumeeira), Gramatinha (Pousaflores), Marzugueira (Alvaiázere), Conimbriga entre outros.

Esta nova reordenação e exploração do espaço está bem patente no Monte da Pega ou no Monte de Figueiró, ambos dominando todo o vale que acolhe o rio dos Mouros entre eles.

Os contactos com o Mediterrâneo Oriental, através do comércio fenício, via Santa Olaia na embocadura do Mondego, estão bem documentados a partir dos sécs. VIII-VII a.C., sendo evidente que os vales de Soure e da Éga desempenharam um papel importante na penetração dessas mercadorias até aos castros.

Outro foi o caminho seguido pelos romanos, presentes na região desde meados do séc. II a.C. Parece indubitável que o percurso traçado por Décimo Júnio Bruto, próconsul da Hispânia Ulterior a partir de 138 a.C. se iniciou em Olisipo (Lisboa) e avançou por terras de Santarém e Tomar, antecipando o trilho da futura estrada que conduziria a Bracara Augusta.

Um marco miliário de Décio, imperador entre 238-260 a.C., encontrado em Tamazinhos (Alcalamouque) situa concretamente a via que entrava no território de Conimbriga por entre Trás de Figueiró e Ateanha e a deixava ao acercar-se de Aeminium. O que terá determinado que o velho castro tenha sido – decretada a pax romana pelo imperador Augusto – transformado em cidade, capital de civitas?

Pode ter sido um conjunto de razões: proximidade de água abundante a pouco mais de três quilómetros nas nascentes de Alcabideque; posição altimétrica ao nível dos cem metros, facilitando a instalação de um aqueduto; implantação topográfica com excelente exposição solar, bons acessos, rápido escoamento de esgotos, proximidade de uma densa e extensa mata, além, talvez, de uma atitude de espontânea aceitação do conquistador por parte do oppidum que dominava os povoados circundantes.

Nas encostas de pequenos cabeços como as Dordias (Pombalinho) ou em plainos mais amplos como os Moroiços (Rabaçal) multiplicaram-se as villae, ao longo do império romano. Vestígios de materiais de construção e louças de mesa e cozinha encontram-se em todos os concelhos, tendo-se registado a presença de mosaicos também em Revolta Seca (Condeixa), Moroiços, Lameiras (Zambujal), S. Simão (Penela), S. Tibério (Pombal), Santiago da Guarda (Ansião).

As invasões bárbaras trouxeram primeiro, os suevos, depois os visigodos e com eles o desmantelamento da organização social e económica, as incursões devastadoras, o medo, a desolação.

A toponímia testemunha a presença árabe que veio a dominar, durante três séculos, estas paragens sem que nenhum lugar tivesse sido verdadeiramente importante. Pelo contrário, prosseguiu o abandono das terras até que, expulsa a moirama de toda a região do Mondego, e após a fundação de Portugal, se iniciaram políticas de colonização e arroteamento confiadas, sobretudo, às ordens religiosas. Data desta época a construção da importante linha de castelos e atalaias que, entre o mar e a serra, se perfilam a entrada das diversas vias que sulcam a zona, fazendo dela palco obrigatório de guerra em qualquer época, como mais recentemente ficou registado para as invasões francesas.

 Actualidade

O modo como se instalaram as aldeias e os campos agricultados, donde se tirava a maior parte do sustento dos habitantes, apresenta uma relação íntima com a compartimentação registada no espaço físico e na paisagem. Neste cenário de pedras, apenas os fundos dos vales secos e das depressões cársicas, onde se acumularam as complexas formações superficiais, permitem o desenvolvimento de solos agricultáveis. Esta é a razão pela qual a maioria das povoações se instalou nas suas proximidades, normalmente em esporões ou mesmo em superfícies rochosas, tendo assim o cuidado de, neste meio adverso, não ocupar os solos de melhores aptidões agrícolas.

Acompanhando a tendência geral verificada no país, nos últimos trinta anos de emigração e deslocação maciça de pessoas do interior para o litoral e dos pequenos povoados rurais para os grandes centros urbanos, o Maciço de Sicó e, principalmente, o seu sector mais carsificado têm vindo a perder população a um ritmo significativo que a média do conjunto de concelhos em que se integram. Esta recessão é particularmente preocupante nos pequenos lugares serranos onde se verificaram, nos dez anos que separam 1981 e 1991, perdas superiores a 40%, o que significa que, de facto, a maior parte das aldeias são hoje lugares envelhecidos, com meia dúzia de pessoas ocupadas numa agricultura e pastorícia tradicionais e afectivamente presos a uma terra que, apesar de ser sua, já não é capaz de sustentar os mais novos, os mais ambiciosos ou, tão simplesmente, os mais exigentes em termos económicos, sociais e culturais.

Assim, para a globalidade dos planaltos e serras, o censo de 91 registou apenas cerca de 6.200 habitantes, repartidos por 60 lugares que, nalguns casos, contam menos de 60 habitantes.

Num período em que a tendência geral é de perda, verifica-se que apenas Condeixa-a-Velha e as freguesias urbanas de Pombal, Soure e Condeixa aumentaram a sua população.

Dos seis concelhos que integram a área de Sicó, só Pombal apresenta um Índice de envelhecimento inferior a 100, o que basicamente significa que há maior número de jovens (<15 anos) que idosos (>65 anos).A análise ao nível das freguesias vem revelar situações que são ainda mais preocupantes em termos demográficos, já que a capacidade de renovação das gerações está francamente posta em causa em algumas delas.

Causa e consequência desta dinâmica demográfica é a elevada percentagem de população que continua a dedicar-se ao sector primário de actividades. Com efeito, das freguesias que integram ou bordejam o Maciço de Sicó, apenas as sedes de concelho apresentam taxas inferiores a 10% de população no sector primário. Para além de algumas unidades ligadas a indústria extractiva, praticamente não existem grandes instalações industriais e o sector do comércio e serviços ainda que importante nas povoações de maior dimensão e, particularmente, nas sedes de concelho, representa muito pouco no emprego e formação de riqueza das famílias serranas.

Apesar de esforços recentes para dotar as aldeias de infra-estruturas mínimas de funcionamento, o que faz com que todas disponham hoje de electricidade, o facto é que grande parte delas não possui rede de abastecimento público de água; um número ainda maior não dispõe de recolha de lixo e nenhuma está ligada a redes de saneamento básico. Tal facto acarreta gravíssimas consequências em termos ambientais, nomeadamente no que diz respeito a qualidade dos aquíferos cársicos que abastecem não só estes lugares, mas também parte significativa dos centros urbanos da região. Em termos de infra-estruturas, a grande melhoria de que as aldeias serranas beneficiaram, nos últimos anos, foi talvez a que diz respeito as acessibilidades, podendo hoje dizer-se que não há povoação na serra, por mais recôndita, que não esteja servida por estrada alcatroada.

Mapa 3 - Densidade populacional em 1991

Mapa 4 - Activos no sector primário

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