O Santuário da Senhora da Estrela está ligado à simbologia uterina das grutas e ainda hoje se encontram, ajoelhados no recinto, casais vindos de muito longe, pagando as promessas de bem sucedida gravidez.
O templo, primitivamente gótico, ergue-se na falésia majestosa, no prolongamento da gruta natural usada como capela-mor; no fundo, os romeiros passam por estreita abertura e recolhem as gotas escorridas do tecto para a cavidade, ungindo com elas a cara, o pescoço e os braços, rito de fertilidade que a Senhora aqui representada como madona do leite abençoa; ritual de transposição da fenda maternal que a água regenera.
A Senhora da Estrela mais a do Círculo no Furadouro, a de Filistera de Anços em Vila Nova, a da Guia no Avelar, a do Bom Sucesso em Soure, a dos Milagres em Cernache e a da Encarnação de Buarcos, são sete irmãs, fugidas cada qual para seu lado com medo dos invasores, mouros ou franceses, que a memória popular confunde-os.
Constituem irmandade também frequente noutras regiões da Beira e que traduz, na sua veneração criteriosamente ordenada ao longo do equinócio de Março, a organização económica de uma vasta comunidade, ligando as populações das terras de Sicó às do mar da Figueira.
Sete domingos a fio em que as populações escoavam os seus excedentes: cabritos de Condeixa, peixe de Buarcos, nozes e frutos da Redinha, linho de Soure, queijo do Rabaçal, pão de coroa e vinho de Ansião, pão e frutos secos de Cernache.